quarta-feira, 19 de junho de 2013

Irmão NÃO diabético!

Essa postagem é dedicada àqueles não diabéticos que já levaram desnecessariamente picadas nos dedos, já atrasaram suas sobremesas e são adeptos dos refrigerantes zero: os irmãos e irmãs dos DM1.

Como a maioria das postagens se referirão inevitavelmente à Alice, que é a DM1 da casa, essa primeira contará sobre o meu filho mais velho, o Lucas, já que seu papel é fundamental na vida da Alice e na forma positiva como ela encara sua condição.

A diferença entre meus filhos é de cinco anos, exatamente. Então Lucas sempre foi uma espécie de mediador do mundo para a Alice, num espaço entre ela e eu com minha visão adulta. Por sorte, Lucas tem temperamento de professor: tem paciência, gosta de explicar as coisas para a irmã e o consegue de maneira clara, muitas vezes muito melhor do que eu. Não é raro eu recorrer ao recurso: “Lucas, explica isso para a sua irmã, por favor”. Se eu fosse escolher uma imagem recorrente, seria a dos dois conversando, sempre.


Quando Alice ficou internada, Lucas então com dez anos, ouviu atentamente o que estava acontecendo com a irmã. Ouviu, pensou e fez muitas perguntas típicas de uma criança se confrontando com o desconhecido: “ela vai morrer? Ela vai tomar insulina para sempre? Ela ainda vai poder comer brigadeiro? Vai poder tomar sorvete? Vai poder brincar? Por que ela ficou assim?”

Respondi uma a uma suas questões, que ele absorveu com olhar atento e cabeça a mil.

Visitava a irmã diariamente no hospital e ficava um tempo enorme sentado com ela em um balanço de dois lugares que havia no pátio e ficavam lá, os dois, conversando, conversando. Tenho certeza que muitas das respostas que eu dei, foram “discutidas” entre eles, no universo infantil ao qual pertenciam.

De início, as conversas pareciam sérias mas, depois de alguns dias, já era possível ouvir risadas e gargalhadas. Foram momentos especiais que enchiam a Alice de alegria no clima tenso do hospital, onde ela fazia um esforço diário para enfrentar seu maior pavor: as agulhas.

Desde pequena, injeções foram torturas para a Alice. Lucas sempre tomou vacinas tranquilamente, sem nenhum temor. Alice foi daquelas crianças que requeria uma equipe de enfermeiras mal humoradas que tinham que ficar segurando as pernas e braços daquela criança que se debatia feito um polvo enfurecido, gritando igual uma iguana. Era um horror! Na sala de espera, eu sentia os olhares reprovadores dos outros pais: “ que mãe incompetente!”. Pois é, esse escândalo em pessoa se tornou DM1!

Por isso demorou um certo tempo para Alice descobrir que a agulha não era tão ruim assim. Nessa ocasião, Lucas entrou em ação. Além de explicar insistentemente à irmã que não havia razão para drama, descobriu um toque de celular que era medonho mas, super engraçado: “Fone, fone, fone, fone, telefoninho tocando” cantava uma vozinha de taquara rachada. Alice morria de rir. Na hora da insulina, vinha Lucas com o celular e a música, distraindo a irmã. Ela ria, se descontraía, até o dia que falou: “não precisa mais do celular, agora eu já acostumei”.

Sem a minha influência ou do pai, Lucas adquiriu hábitos solidários que persistem até hoje: se a irmã estiver com a glicemia alta e tiver que esperar para comer um doce, ele espera junto. Ele toma apenas refrigerante zero, em cooperação. Não é “doceiro” e mantém um controle alimentar saudável, inclusive para incentivar a irmã a fazer o mesmo.

Tenho certeza que essa história de solidariedade entre irmãos se repete em muitas outras casas de DMs. Por isso fiz questão de homenagear os não-DMs que são fundamentais nessa nossa empreitada diária.


Postado por: Ana Beatriz Linardi

7 comentários:

  1. Que lindo! Aqui em casa tb é assim!
    Mas entre o Lucas e a Júlia, nao poderíamos esperar outra coisa!
    Parabéns, Bia e Dil, essa dupla vai ser um sucesso!
    Beijos
    Yara

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    1. Obrigada Yara, sua presença sempre constante em nossas vidas!
      Um beijo

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  2. Chorei demais aqui ao ver tamanha sensibilidade num homenzinho tão novo....sem palavras....isso é q é DOÇURA!!!!!

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    1. Oi Kellen, de fato, é muito emocionante mesmo ver o quanto as crianças são solidárias e como amadurecem nesse processo. Obrigada pela leitura e comentário. Beijo.

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  3. Chorei lembrando de tudo que aconteceu aqui em casa, mas pelo irmão mais novo 6 anos que sempre se mostrava adulto na hora de me apoiar nessas horas "difíceis", e do fato de agora ele também estar na mesma situação, mas como igual maturidade..

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    1. Não é incrível, Pecha, a força dos pequenos? E como amadurecem nesse processo. Obrigada pela leitura e comentário. Beijo.

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  4. Tudo de otimo, essa equipe!!!! Parabens Bia!

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